sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Texto que deve ser lido

Este texto de Ségio Valente foi publicado em 1999,na antiga seção "Criação e consumo" da Folha de S.Paulo.Por oportuno e sempre atual vale a pena (re)lê-lo)

Bote o chapéu onde o braço não alcança 02/10/1999 SÉRGIO VALENTE
Tem um ditado na Bahia que diz assim: nunca coloque o chapéu onde o braço não alcança. A única coisa que eu não gosto na Bahia é desse ditado. Eu acredito exatamente no contrário.Eu fico imaginando o que você acharia de um sujeito que comprasse 20 mil alqueires no meio do pântano, em um Estado que não tinha a menor tradição turística, como se diz no Nordeste: nos cafundós do Judas.Quem olha hoje os quatro grandes parques de diversão e os incontáveis resorts que surgiram naqueles 20 mil alqueires imprestáveis fica impressionado com a capacidade do visionário que inventou tudo aquilo. Mas quem olhava antes ficava indignado com a incapacidade de ver a realidade do sonhador e irresponsável Walt Disney e seu megaprojeto, que acabou construindo um império e um Estado, a Flórida.Mas o que isso tem a ver com criação e consumo, objeto dessa coluna? Tudo, meu amigo. Tudo. Nós trabalhamos com a arte de vender sonhos e o primeiro sonho que nós temos que vender é para nós mesmos, o sonho de que se pode chegar ao infinito, ser o maior, o melhor, chegar ao máximo e acreditar, piamente, que, se morrer antes, é que morreu antes, não que não fosse chegar.Se você não acreditar nisso, nesse megalômano destino, como vai fazer com que os consumidores dos seus clientes acreditem? Se você não convencer o consumidor a botar o chapéu onde o braço não alcança ele não vai comprar o produto do seu cliente, seu cliente não vai vender e você não vai ter sucesso.Tecer teorias de auto-ajuda profissional é fácil. Aplicá-las também é. Sou o redator menos premiado da DM9 (e isso contando os estagiários também). No entanto, faço parte do board de diretores de criação da mais criativa agência do mundo. Isso porque eu coloquei o meu chapéu onde o braço não alcançava.Com a devida licença, pergunto aos experientes, premiados, famosos e endeusados publicitários brasileiros, que tão bem colocam o chapéu onde o braço não alcança no que diz respeito à forma, se já não está na hora de agir dessa forma um pouco mais em relação ao conteúdo, ao marketing, ao posicionamento, enfim, à comunicação.Você compraria um terreno no pântano para fazer um parque? Disney comprou. Você proporia a um cliente seu concorrer com a água potável? A Coca-Cola se posiciona assim. Você demitiria um funcionário que errasse? Bill Gates, não. Você acreditaria que um estudante de medicina com 19 anos seria capaz de vender mais computadores que a IBM e a HP? Michael Dell acreditou e só precisou de 14 anos para realizar esse sonho.Esses são só uns exemplos do que eu acredito ser, na prática, colocar o chapéu onde o braço não alcança. Pense nisso. Eu penso nisso todos os dias, em tudo que faço, e tem dado certo. Os clientes também não têm reclamado dessa forma de ver a vida e o "business".Se você não concorda com nada disso eu já consegui uma grande vitória, você leu o texto até o final. Não tem problema. Siga o seu caminho, que eu vou seguindo o meu: colocando o meu chapéu e o dos clientes onde o braço não alcança, e assim fazendo o nosso braço esticar.O baiano Sérgio Valente, 35, é o redator menos premiado da DM9DDB, membro do board de diretores de criação da agência e escreveu neste espaço à convite do também baiano Nizan Guanaes, presidente da DM9DDB