domingo, 14 de março de 2010

outro bom texto.

A trilogia da burrice - parte 1
GUSTAVO IOSCHPE especial para a Folha Diz aí: qual foi a última vez que você foi ver um filme ou peça sem ter lido uma crítica ou comprou um livro sem ter visto resenha ou ouvido recomendação de alguém? Quantas vezes você foi ao restaurante da moda? Sobre quantas pessoas você formou uma opinião sem ser influenciado pelo que delas disseram seus amigos? Quantas vezes você achou uma resolução política idiota ou um programa de TV estúpido? Das entrevistas que você ouve ou lê, em quantas você parou pra se perguntar: "Será que esse cara tá certo?". Ou, ainda: "Será que ele tá dizendo a verdade?". Em suma: qual foi a última vez em que você pensou? (No sentido amplo da palavra, de inquirir, duvidar, filtrar e chegar às próprias conclusões, sozinho.)Se você é como a maioria, deve fazer algum tempo. E não se está aqui ofendendo ninguém nem lhe puxando a orelha: vivemos em uma sociedade em que pensar não só é desnecessário, como perigoso.Há uma seleta minoria que é paga pra pensar pelos outros. Gente que lhe diz o que vestir, o que comer, aonde ir, o que fazer com o seu tempo livre, de quem gostar etc. A palavra dessas pessoas é canônica e, em vez de servir como mero auxílio no exercício fundamental do ser humano -raciocinar-, o oráculo dos pensantes acaba substituindo a capacidade de discernimento individual. Era pra ser bengala pra casos raros, virou cadeira de rodas constante. Pra ser cartesiano, "Cogito, ergo sum", disse Descartes: "Penso, logo existo". Não penso, logo não existo. Ou, pelo menos, "no mucho".Há então que se perguntar como é que chegamos ao ponto de ser uma sociedade em que não se pensa. Vivemos um estilo de vida conducente à irreflexão. O homem moderno foi amesquinhado: trabalha feito um doido atrás de uma ascensão social que raramente vem; seu tempo é gasto em salas, reuniões, despachos, uma correria sem fim. Seus dias se repetem, sua vida não se altera: é uma sucessão infinita de tarefas, sem nunca formar uma obra. É, como dizia Paulo Freire, "esmagado pelo tempo": não se situa, não se encontra; é objeto, e não sujeito de sua vida. Desse homem amesquinhado, que ganha pouco, sofre muito, passa horas sacolejando em ônibus e ainda tem de cuidar do sarampo do filho quando chega em casa, não se pode esperar energia ou disposição para o exercício do pensamento. Perde-se, então, no lazer fácil, nas diversões inebriantes, mas que não constroem coisa nenhuma: novelas de TV, filmes de ação etc.Como a sociedade lhe exige a felicidade, ele se contenta com o que vem à mão. Já que o cenário que o oprime lhe parece complicado e alheio demais pra ser mudado por meio de sua ação individual, ele recolhe-se ao papel insignificante que lhe foi prescrito e segue o barco pegando o repuxo das idéias dos que se salvaram do naufrágio.Não fizesse assim, aliás, estaria em perigo. Primeiro, pela parte logística: uma hora a mais de reflexão significa uma hora a menos para cuidar do concreto (emprego, família, amigos etc.), o que pode acabar em demissão, divórcio ou outro bicho desses, cruz credo, virge santíssima. Segundo, por ir contra o socialmente desejável: pensar requer introspeção, solidão, reclusão. Comportamentos associados com a tristeza, a depressão, a incapacidade social -faltas intoleráveis em um ambiente onde refugiar-se é inadmissível (e, de mais a mais, inútil, já que o próprio homem não pode contar com sua melhor companhia, que é uma cabeça ativa). Por último, pensar é perigoso porque incita a rebeldia: qualquer um que analisar certas estruturas, posicionamentos e declarações verá que abunda por aí quantidade imensa de estultices, mentiras e safadezas, que, quando descobertas, são intragáveis. Melhor é nunca morder a maçã da sabedoria, pois nos tempos que correm, desde Eva, o paraíso é a inconsequência, o não-se-importar, o não-se-incomodar e o não-agir, o que pressupõe o não-pensar. Y así pasamos los dias, como os patos pra foie gras, com a goela aberta recebendo a porcaria que vem de cima até o dia do abate. Ou da explosão do fígado. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm07069913.htm


A trilogia da burrice - parte 2
GUSTAVO IOSCHPEespecial para a Folha
Mencionado o fenômeno da preguiça mental coletiva, cabe agora entender quem vem ajudando a espécie na sua involução para "Homo ignoramus". Hoje: a intelectualidade."Mas a intelectualidade?", perguntará o leitor, inabalável em sua crença nos poderes oraculares daqueles que deveriam ser justamente os seres pensantes deste planeta. Mas, num mundo onde modelos são atrizes e onde comediantes são filósofos, nada demais.Os intelectuais são, por definição, gente que vive de suas idéias (ou de imitar as idéias alheias, mas isso são outros 500). A eles a sociedade deu o acesso à cultura universal e, na maioria dos casos, subsidiou seus estudos ou pesquisas com verbas do nosso dinheirinho. Esperava-se dos intelectuais que: (a) usassem de seu conhecimento para pensar, (b) repartissem os "insights" alcançados com aqueles que não tiveram a fortuna de possuir uma mente apta ou alguém que lhe sustentasse o diletantismo e (c) usassem seus conhecimentos para melhorar o estado das coisas. Os intelectuais, em sua maioria, não fazem uma coisa nem outra.Quando chegam ao que se chama "torre de marfim" do conhecimento superior, ficam, lá de cima, em sua confraria, rindo dos pobres mortais pastando embaixo e assegurando-se de que o clubinho permaneça fechado. Sua preocupação não é disseminar conhecimento, mas, sim, de exibi-lo -e exibi-lo para quem já sabe, num infindável concurso de beleza entre pavões de plumagem semelhante, que arrotam Nietzsche e Sartre até pra falar do tempo. Justamente porque seu objetivo é mostrar erudição e cultura para os outros do clube, eles não se preocupam muito em gerar nada de novo; isto é, de pensar. Limitam-se a regurgitar o que já se sabe, até porque o pensamento original corre o sério risco de ser rejeitado pelos encastelados da torre ou demais forças reacionárias, e o autor, assassinado -literal (vide Sócrates) ou metaforicamente.Ao invés da dedicação obstinada e silenciosa típica do bem-pensante, a "intelligentsia" aproveita qualquer oportunidade pra rodar a baiana e falar sobre o que sabe e, mais frequentemente, o que não sabe. Querem reconhecimento, querem público e palmas e, quando possível, uma verbinha oficial, que ninguém é de ferro. Na luta por mais espaço, ofendem a inteligência do leitor: o que não passa de opinião é apresentado como fato inquestionável, e aquilo que é verdadeiramente factual é disfarçado com um "achismo" preguiçoso porque o "philosophe" não teve disposição para se informar e achar os dados.Isso é um fenômeno geral, mas mais agudo no Brasil. Primeiro porque falta pesquisa, falta informação. Como o intelectual está escrevendo pra uma platéia de iletrados, dá-se o direito de inventar. Em vez de levantar dados, prefere dar shows em páginas de jornais ou do púlpito de suas cátedras -ou, de preferência, de ambos e ao mesmo tempo, que é pra pesquisa ser mesmo impossível. Dir-se-á que falta dinheiro pra pesquisa (e é verdade), mas falta também vontade. Mas não há vontade porque a "intelligentsia" brasileira é formada por um clube seleto de "pensadores" de esquerda, que formaram seu monopólio sobre a burrice coletiva e protegem-se uns aos outros com o empenho do PC russo em seus áureos tempos. O intelectual de esquerda não raro deixa de pensar e passa a ser ativista, o que, se por um lado é bom -porque há aí um esforço genuíno para mudar a condição social do país-, por outro é péssimo, pois ao ativista não é permitida a honestidade intelectual de um pensador. Assim, o clubinho marxista adota o que de pior há na esquerda -o autoritarismo, o patrulhamento ideológico, a postura ranheta- e esquece-se do melhor: solidariedade, compaixão, Justiça. Ao invés de fazerem o populacho pensar, querem condicioná-lo a enxergar a única verdade, que é a deles mesmos.E, quando quer que você ouça um suposto intelectual falar em "A verdade", "O caminho" e demais arbitrariedades, saia correndo. Logo, logo o bicho vai começar a desenvolver orelhas asininas e dar coice. Pra delírio da platéia, já tão equina quanto o próprio.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm14069917.htm

A trilogia da burrice - parte 3
GUSTAVO IOSCHPEespecial para a Folha Usando de questionamento em voga nos círculos supostamente pensantes: teria a preguiça intelectual causa genética ou seria ela aprendida?; "nature or nurture"? Já que a evolução, por alguma razão, dotou-nos de cérebro de uma complexidade tremenda e que, ao longo da espécie, produzimos cérebros como o de um Newton, um Kant, um Descartes, um Einstein ou um Freud -pra não citar Itamar Franco, um mistério da natureza-, somos forçados a admitir que fomos dotados de capacidade pensante e que, se não a usamos mesmo a sabendo presente, será por motivo insondável, assim como o não-levantar da tampa da privada. Genético não é. Resta-nos o ambiente, até porque ser tão burro com toda essa massa encefálica requer horas de esforço, paciência e muita vontade. Quem seriam então os responsáveis por esse aprendizado?Ora, os mesmos que ensinaram a você a permeabilidade seletiva da célula, ou a cor da manga do colete de Napoleão: os professores.Nos primeiros anos de aprendizagem, tem-se a impressão de que os professores são seres sobrenaturais, dotados de sabedoria infinita e paciência idem. À medida que se cresce, vai-se notando que também os professores se dividem em curva gaussiana, como quase tudo na vida: uma grande massa de medíocres (isto é, medianos), cercados por uma minoria de estupidez total e outra de brilhantismo absoluto. E da grande massa de desqualificados, que não conseguem pensar eles mesmos, não se pode esperar que o ensinem a seus alunos.Como não podem ensinar a pensar, ensinam a decorar fatos ou, no máximo, a entendê-los. Veja que ensinar fatos é quase inútil: com a infinidade de conhecimentos e a facilidade que hoje se tem de encontrá-los, ninguém deveria se preocupar em ensinar nada além de como discernir o essencial do desimportante, como encontrar o primeiro e o que fazer com ele. Sendo isso inalcançável, a instituição do ensino transforma-se em uma reunião de indisposições coletivas, em que o "mestre" vomita a síntese de seus livros, o aluno engole e trata de não esquecer, para, alguns meses mais tarde, vomitar tudo de volta, num saco pra enjôo chamado "prova".Não seria assim tão mal se os professores pudessem reconhecer o pensamento original e recompensá-lo. Já que não ajudam, que não atrapalhem. Mas quem quer que já tenha ousado discordar de um professor -ou, pior ainda, questioná-lo em seu templo sagrado, a (rufar de tambores) sala de aula- sabe qual é o resultado: um redondo zero no primeiro caso e uma visita à coordenadora pedagógica por "problemas de comportamento" no segundo. E, ainda que a adolescência seja época de grande idealismo, não há rebeldia que aguente uma sucessão de zeros, pois o sistema impõe a necessidade de um diploma. E um diploma significa aprender que, quando um burro fala, os outros baixam as orelhas, em metáfora comumente utilizada por professores, quiçá por representar auto-imagem inconsciente, em fenômeno que dr. Freud já previra.A escola torna-se, assim, mecanismo de controle social, onde à criança é ensinada desde cedo a adoção do comportamento dócil e servil, que lhe será fundamental no mundo adulto, quando tiver um patrão em vez de professor. Nada surpreendente, aliás, já que a própria escola foi criada para garantir a uns poucos o conhecimento que lhe permitiria manter uma ordem social hierarquizada. O sistema de educação massificado é fenômeno só pós-Revolução Industrial, quando à choldra foi permitido aprender um mínimo para que pelo menos operasse as máquinas do patrão direitinho. Desde o começo e até hoje, a escola -e seus arautos, os professores- foi instituição restritiva, e não disseminadora de conhecimentos, e mais assassinou a criatividade do que a incentivou.Pouco surpreende que vários dos grandes gênios tenham tido problemas com a escola. Thomas Edison foi expulso da sua, aos 8 anos, por ser "curioso demais". Bendita curiosidade, já que o moço, alguns anos mais tarde, inventaria a lâmpada.
Gustavo Ioschpe, 22, é escritor e estuda administração na Wharton School e ciência política na University of Pennsylvania, EUA, e-mail: desembucha@cyberdude.comhttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm21069914.htm

Texto antigo,mas sempre novo de Gustavo Iochpe

free way Ler e escrever; pensar e existir
GUSTAVO IOSCHPE especial para a Folha Muita gente escreve perguntando como se faz pra escrever bem. (E eu sei lá? Pergunte pro Veríssimo ou pro Gaspari.) Parece que, além do 1% de inspiração que está no DNA de qualquer aspirante a Shakespeare, o que é determinante são os 99% de transpiração. O que, em matéria de escrita, só significa uma coisa: ler.Ler é fundamental. Não só por uma série de razões práticas -aumenta seu vocabulário, seu conhecimento geral, a capacidade de expressão e a probabilidade de sucesso com as mulheres-, mas especialmente por despertar áreas adormecidas de seu cérebro. Ler a boa literatura assim como entrar em contato com artes plásticas ou música ativa a imaginação, a capacidade de abstração. Mas, mais importante, ler desenvolve a única capacidade realmente importante nessa vida, que é a de pensar.Passando um certo ponto de leitura, a estupidez fica impossível. Você não pode ler Marx e Smith e concordar com ambos, sem se questionar sobre qual dos modelos econômicos faz mais sentido. O mesmo vale pra Platão e Maquiavel quando se fala dos governantes; Sun Tzu e Gandhi sobre a guerra; Hobbes e Thoreau sobre obediência civil; Freud, Jung, Santo Agostinho e Paulo Coelho no que diz respeito à espiritualidade etc. A lista é infinita: pra cada aspecto mais ínfimo da vida humana, há uma multidão de opiniões diferentes e quando você entra nelas é impossível que o seu cérebro, enferrujado por horas e horas de baboseira televisiva, não pegue no tranco e comece a trabalhar. Só há três dificuldades nesse processo.A primeira é gostar de ler. Quem lê por obrigação não passa de algumas dezenas de livros e nunca entende o prazer que é a leitura. Essa idéia de que literatura é algo enfadonho é, claro, herança de todos os professores limitados que lhe mandaram ler porcaria no colégio e depois fizeram provas ou pediram "fichas de leitura" em que você, como papagaio, teve de repetir a história pra provar que leu. Duas dicas: primeiro, leia o que lhe interessa, não espere o professor lhe pegar pela mão; segundo, lute contra a mediocridade dos seus professores, exija tratamento de ser pensante.A segunda dificuldade é saber o que ler. Lembro-me de ficar lendo as pessoas que eu admirava ou tinha respeito na minha infância pra ver o que elas liam ou recomendavam e aí tentava ler o mesmo. Acabei lendo "O Nascimento da Tragédia", de Nietszche, com uns 14 anos, achando que a tragédia mencionada era alguma hecatombe; nem idéia da tragédia grega, Sofócles ou Ésquilo. Ou seja, não dá certo. Outro caminho é ler os clássicos, aquilo que todo mundo já disse que é bom, de Homero a Proust.Mas não adianta dar caviar pra quem nunca comeu lambari. Vai encher o saco. Comece lendo coisas que lhe interessem e que prendam a atenção, aos poucos você acaba migrando pra boa literatura, por causa das citações, referências e tal. Só não vá para aquela areia movediça de esoterismo, auto-ajuda e romance "melacueca", que porcaria vicia.Por último, "há uma pedra no meio do caminho". Acontece pra muitos de, depois de ler meia dúzia de livros, achar que o seu lado da moeda é o único e rejeitar todo o resto como mentira. É a arrogância típica do "imbécil". Cuidado pra passar essa fase. Quanto mais se lê, mais se nota que se sabe pouco, quase nada. E que pouco na vida é imutável, definitivo, inquestionável. O que importa é desenvolver a capacidade de pensar e de julgar por si só. Até pra entender que tudo o que está escrito acima pode não passar da mais absoluta idiotice.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm01039921.htm